Há um fenômeno curioso, e preocupante, na vida pública quando vemos que o espanto parece ter deixado de existir. As manchetes sobre operações da Polícia Federal, buscas e apreensões em gabinetes de governos, câmaras legislativas e até em instituições federais já não provocam mais indignação. Tornaram-se parte do noticiário cotidiano, consumidas com a mesma naturalidade com que se lê sobre o tempo ou o futebol.
O que um dia representou a quebra de um pacto moral entre o poder público e a sociedade se tornou sinal de normalidade. A imagem de agentes federais entrando em prédios públicos, recolhendo computadores e documentos, já não desperta o choque ou a revolta que se esperaria de uma população cansada de ver seus impostos e sua confiança traídos. É como se o cidadão tivesse desenvolvido uma espécie de anestesia ética, um mecanismo de defesa diante da repetição dos fatos e da sensação de impotência diante deles.
Essa banalização da corrupção é um dos sintomas mais graves da crise de confiança nas instituições. Quando a investigação, que deveria significar o início da correção de rumos, passa a ser vista apenas como um episódio previsível, algo se perdeu no caminho entre o dever público e a justiça. Parte dessa descrença nasce da própria ineficácia das punições, com processos que se arrastam por anos, recursos infindáveis e desfechos quase sempre favoráveis aos acusados, especialmente quando se trata de gestores com influência política ou econômica.
A impunidade, somada ao descrédito geral, alimenta o ciclo vicioso. De um lado, o poder público opera na lógica da aposta, a de que o escândalo se tornará apenas mais um na longa lista de denúncias sem consequência. De outro, o cidadão comum reage com indiferença, descrente de que algo vá realmente mudar. Entre a indignação e a resignação, o cidadão parece ter escolhido o silêncio cansado.
Mas há um risco enorme nessa acomodação. Quando o erro se torna hábito e o desvio de conduta é tratado como parte da paisagem política, abre-se espaço para a normalização do inaceitável. A corrupção deixa de ser exceção e passa a ser estrutura. E, nesse cenário, a verdadeira vítima é a própria democracia, que perde seu sentido de representatividade e transparência, e o mais triste, isso já acontece.
Recuperar a capacidade de se indignar é um passo essencial para qualquer sociedade que pretenda se reconstruir eticamente. Não se trata de clamar por linchamentos morais, mas de exigir que a lei tenha efeito, que o poder público seja responsabilizado e que a honestidade volte a ser regra, e não exceção. Enquanto a corrupção continuar sendo tratada como rotina, o futuro continuará sendo sequestrado pela complacência.
Quando o escândalo vira rotina

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