Há um traço curioso que une o futebol e a política brasileira, que é a dificuldade de aceitar a derrota. Em ambos os campos, um movido pela paixão, o outro pelo poder, é cada vez mais comum assistir a cenas de inconformismo, acusações infundadas e tentativas de desacreditar o resultado quando ele não agrada. Curiosamente, quando a vitória chega, mesmo que cercada de favorecimentos ou erros evidentes, reina o silêncio conveniente.
Nas arquibancadas e nas redes sociais, vemos dirigentes, treinadores e jogadores transformando entrevistas e coletivas em tribunais da arbitragem. Quando perdem, o discurso é conhecido: “fomos prejudicados”, “o VAR interferiu”, “a arbitragem nos tirou a vitória”. Mas basta uma marcação duvidosa a seu favor, um pênalti inexistente ou um impedimento ignorado, e as vozes da indignação se calam. O erro, quando os beneficia, vira “parte do jogo”.
A política brasileira tem reproduzido o mesmo comportamento. Há quem só reconheça a legitimidade do sistema eleitoral quando vence. As urnas eletrônicas, as mesmas que elegeram, por décadas, políticos de todas as matizes ideológicas, passam a ser suspeitas quando o resultado não agrada. O que antes era símbolo de modernidade, agilidade e segurança vira, de repente, instrumento de manipulação. Sem provas, sem fundamentos, mas com ampla repercussão.
Esse jogo perigoso de desacreditar as instituições quando não se vence é, no fundo, uma forma de desrespeitar o próprio eleitorado. Na política, quem perde tem o direito de fazer oposição, de se reorganizar e disputar novamente. O que não tem é o direito de transformar a derrota em farsa, minando a confiança pública e alimentando o caos.
A diferença é que, no futebol, as consequências costumam ser leves. Quando muito, uma multa simbólica, uma suspensão de algumas partidas, e a vida segue. Já na política, o jogo é outro. As punições começam a sair do papel, e estão “no forno” do Supremo Tribunal Federal. A Justiça Eleitoral e o STF vêm sinalizando que não há mais espaço para o uso criminoso das redes sociais, nem para a manipulação de massas com base em mentiras e teorias conspiratórias sobre o processo eleitoral.
Enquanto no futebol o torcedor ainda ri da esperteza e releva o mau perdedor, na política o preço da desinformação é alto. Coloca em risco a democracia, incentiva a violência e destrói a confiança coletiva. É preciso que aprendamos, dentro e fora dos estádios, a respeitar o resultado do jogo, seja ele decidido por um gol nos acréscimos ou por milhões de votos apurados com transparência.
A hipocrisia das derrotas entre os apitos e as urnas

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