A política é tratada em regra nos corredores, nas conversas reservadas, nos gestos e movimentos calculados, e nas intenções que nunca viram nota oficial. Foi exatamente assim, por exemplo, no caso da possível antecipação da eleição da mesa diretora da Câmara Municipal de Campos, conforme anunciamos aqui em nosso blog na última semana.
Não houve anúncio formal. Nenhum dirigente falou publicamente. A Câmara, institucionalmente, permaneceu em silêncio. Ainda assim, a informação não foi ignorada e havia, sim, a intenção de antecipar o processo eleitoral interno, numa movimentação que surpreenderia logo no início do ano legislativo, e, que também deve ser devidamente intendido como movimento passível de aceite, já que faia parte do jogo. Fazia? Não por acaso, tratei do tema na semana passada, quando os sinais já eram claros para quem acompanha o cotidiano político além da superfície.
O que talvez não estivesse no radar de muitos é que o Supremo Tribunal Federal já havia fechado essa porta. Em decisão consolidada em 2025, o STF definiu que eleições para mesas diretoras do Legislativo só podem ocorrer nos três meses que antecedem o início do novo mandato, ou seja, a partir de outubro. Antes disso, qualquer tentativa é inconstitucional. Simples assim.
O efeito da decisão vai muito além de Campos e outras Câmaras na região que também já se movimentavam. Ela frustra, de uma só vez, os planos de todos os presidentes de Assembleias e Câmaras do Brasil que viam na antecipação uma ferramenta estratégica. Seja para garantir reeleição, reorganizar forças internas ou neutralizar adversários, o expediente vinha sendo usado, e naturalizado, ao longo dos anos.
Aqui na nossa região, o impacto é direto. Mais de uma Câmara se preparava para repetir movimentos conhecidos, apostando que a antecipação passaria despercebida ou seria tratada como mera questão regimental. O STF, no entanto, foi claro ao afirmar que não se trata de detalhe burocrático, mas de respeito à temporalidade dos mandatos e ao princípio democrático.
A decisão expõe uma contradição incômoda. Publicamente, muitos discursos falam em legalidade, transparência e respeito às instituições. Nos bastidores, a prática costuma ser outra. A antecipação das mesas diretoras sempre foi uma forma elegante de ganhar tempo político, mesmo que isso significasse esvaziar o debate interno e reduzir o espaço de disputa.
Desta vez, não deu.
O Supremo não apenas definiu um calendário. Interrompeu uma cultura que se acostumou a driblar o tempo para consolidar poder. A articulação continua existindo, o jogo segue aberto, mas o calendário agora, é outro, e pelo jeito ficará para depois das eleições 2026.





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