Aqui, lá, acolá. Não importa o mapa. As cenas são sempre as mesmas com famílias devastadas, casas arrastadas, histórias soterradas, vidas interrompidas. Perde-se o pouco, perde-se o muito, perde-se tudo. E, mais uma vez, perde-se o que nunca deveria ser perdido que são vidas. Vidas levadas por enxurradas previsíveis, por encostas instáveis, por deslizamentos que não surpreendem ninguém, porque há anos são anunciados, mapeados, repetidos, ignorados.
Não se trata de fatalidade. Não é o imprevisível. Não é a força incontrolável da natureza. Vivemos em um tempo em que a engenharia é capaz de obras gigantescas, de soluções complexas, de prevenção eficaz. A incapacidade, portanto, não é técnica. É política. É administrativa. É de gestão. E tem nome de omissão.
Quando digo “o homem falha”, falo do homem público. De todos eles. Em todos os níveis. Em todos os lugares. Porque as áreas de risco são conhecidas, os relatórios existem, os alertas são emitidos, a imprensa registra, a população sabe. A tragédia não chega de surpresa, chega autorizada pela inação acumulada.
Aqui em Campos, já choramos perdas demais para fingir espanto. É verdade, e é justo dizer que muitas famílias foram retiradas ao longo dos últimos anos de encostas e de áreas que alagavam todos os anos. Houve intervenção, houve remoção, houve proteção. Mas também é verdade que o problema nunca foi plenamente enfrentado. Ainda há gente vivendo onde não deveria, ainda há locais condenados à repetição do desastre, ainda há prevenção que ficou no papel.
Hoje vemos a população de Macaé sofrendo, como vimos há poucos dias de Itaperuna, de Cambuci, e assim se repetem nos demais municípios, como no Rio de Janeiro, onde é quase diário o drama. O Estado de Minas Gerais está chorando na Zona da Mata Mineira.
E cada tragédia que se repete não é apenas um desastre natural. É um fracasso humano. É o resultado de prioridades distorcidas, de decisões adiadas, de obras prometidas e não entregues, de planejamento negligenciado. Governar não é reagir à manchete. Governar é impedir que ela exista.
Quem ocupa cargo público não carrega apenas poder, carrega vidas. Cada encosta que desaba e leva pessoas junto carrega também o peso de decisões que não foram tomadas. Cada casa arrastada pela água expõe a ausência de quem deveria ter agido antes. Cada morte evitável é, também, responsabilidade de quem tinha o dever de evitar.
Que as imagens que hoje nos revoltam parem de ser tratadas como fatalidades e passem a ser reconhecidas como o que muitas vezes são consequências. Porque, aqui, lá, acolá, onde quer que seja, quando a tragédia é anunciada e nada é feito, não é só a chuva que mata. A omissão também.
Tragédias anunciadas quando a omissão também mata

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