Em qualquer esfera de poder, sendo ele municipal, estadual ou federal, o exercício do cargo Executivo vai muito além da gestão administrativa. Elaborar políticas públicas, organizar contas e executar programas são tarefas indispensáveis, mas insuficientes quando desconectadas de um elemento igualmente vital, que é o processo político. Ignorar essa dimensão pode comprometer não apenas a governabilidade, mas a própria sustentação do projeto de poder.
O cenário atual envolvendo o presidente Luiz Inácio Lula da Silva ilustra com clareza esse desafio. Ao enfrentar sucessivas dessabores em disputas com o Congresso Nacional, evidencia-se uma tensão clássica entre Executivo e Legislativo, tensão essa que não se resolve apenas com competência técnica ou capacidade administrativa. Trata-se, sobretudo, de articulação, construção de alianças e presença ativa no campo político.
Governar exige interlocução constante. O chefe do Executivo não pode se permitir o isolamento das discussões políticas que moldam o ambiente institucional. A ideia de que basta “deixar a política de lado” para focar na administração pública é, na prática, um equívoco que apresenta conta alta. A política não é um ruído no sistema; é parte estruturante dele.
Mais do que participar, é essencial construir e manter um grupo político coeso, com identidade clara e alinhamento estratégico. Esse grupo deve ter voz ativa e capacidade de debate interno suficiente para contribuir com decisões. Não se trata de eliminar divergências, mas de organizá-las dentro de um projeto comum, evitando que a fragmentação interna enfraqueça a ação externa.
A ausência dessa base sólida pode levar a um fenômeno silencioso, porém devastador que é a corrosão progressiva do alicerce político. Decisões passam a ser tomadas de forma reativa, alianças tornam-se frágeis e o governo perde capacidade de antecipação. Quando os efeitos se tornam visíveis, muitas vezes já é tarde para reconstruir.
Cuidar do administrativo é, sem dúvida, fundamental e inegociável. Mas a política é o terreno onde a administração ganha viabilidade. Um governo tecnicamente eficiente, mas politicamente isolado, tende a enfrentar obstáculos constantes. Por outro lado, uma liderança que compreende o equilíbrio entre gestão e articulação amplia suas chances de estabilidade e efetividade.
A lição que se impõe é clara, e governar é também negociar, dialogar e construir. O processo político, quando bem conduzido, não apenas sustenta a administração, ele a viabiliza. Ignorá-lo é correr o risco de descobrir, tarde demais, que as bases já estavam comprometidas.





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