O primeiro grande processo eleitoral do Sistema CFT/CRTs ficará registrado não apenas pela escolha de dirigentes para o quadriênio 2026-2030, mas principalmente pela profunda crise de confiança que se instalou ao longo do certame.
Criado para representar milhares de técnicos industriais em todo o país, o Sistema CFT/CRTs viveu sua primeira eleição digital. Contudo, o que deveria ser um marco de consolidação institucional acabou transformando-se em um ambiente de disputas administrativas, recursos sucessivos, denúncias de irregularidades, questionamentos jurídicos e uma crescente judicialização.
E a mão pesada da Justiça teve que ser invocada, e a decisão da Justiça Federal envolvendo o processo eleitoral do CRT-02 é apenas mais um capítulo de uma história muito maior. O caso, que discute o atendimento ou não de requisitos de elegibilidade previstos no regulamento eleitoral, expõe uma questão central, de quando as instâncias internas deixam de transmitir confiança aos participantes, o Judiciário passa a ser chamado para arbitrar conflitos que deveriam ter sido resolvidos dentro da própria instituição.
E esse não foi um episódio isolado.
Em praticamente todas as regiões do país surgiram pedidos de impugnação, recursos administrativos, representações e manifestações de candidatos questionando atos das Comissões Eleitorais Regionais (CERs). As críticas, contudo, ultrapassaram o âmbito regional e alcançaram diretamente a Comissão Eleitoral Nacional (CEN), alvo recorrente de acusações de falta de uniformidade nos julgamentos, ausência de transparência em determinadas decisões e suposta adoção de critérios distintos para situações semelhantes.
Independentemente da procedência ou não dessas acusações, o fato político é inegável, pois nunca houve tamanho grau de insatisfação pública com a condução de um processo eleitoral dentro do Sistema.
O cenário tornou-se ainda mais delicado quando declarações feitas em plenária por integrantes da própria direção nacional passaram a alimentar novas controvérsias. Entre elas, ganhou repercussão a manifestação do presidente do Conselho Federal, que admitiu condutas de possíveis infrações eleitorais. As declarações provocaram reações imediatas, ampliaram a fragilidade institucional e serviram de fundamento para novos questionamentos.
O problema, entretanto, vai além das pessoas ou das chapas em disputa.
O que está em jogo é a credibilidade do próprio modelo eleitoral adotado pelo Sistema CFT/CRTs.
Instituições fortes não são aquelas que não enfrentam conflitos. São aquelas capazes de resolvê-los com regras claras, decisões previsíveis e absoluta confiança dos seus representados. A judicialização crescente observada neste processo é um sintoma dessa perda de confiança. Afinal, quando recursos administrativos deixam de convencer, os processos inevitavelmente migram para os tribunais.
O desafio que se apresenta após a conclusão do pleito talvez seja maior do que a própria eleição. Será necessário reconstruir pontes, revisar procedimentos, fortalecer mecanismos de controle e, sobretudo, restabelecer a confiança dos profissionais que compõem o Sistema.
Porque nenhuma instituição consegue se fortalecer quando uma parcela significativa de seus integrantes termina uma eleição acreditando que foi derrotada não pelas urnas, mas pelo processo.
E este talvez seja o principal alerta deixado pelo grande teste democrático do Sistema CFT/CRTs. A legitimidade não nasce apenas do resultado. Ela nasce, principalmente, da confiança coletiva nas regras que conduzem ao resultado.
O jogo ainda não está jogado.





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